Colecções - Têxteis


Tapeçaria "à maneira de Portugal e da Índia" - O Cortejo; Trabalho franco-flamengo (Tournai), século XVI; Inv.37

Ao seleccionarmos um conjunto de têxteis da Colecção reunida pelo Dr. Ricardo do Espírito Santo Silva optámos, naturalmente, pela escolha das espécies mais significativas onde dois núcleos imediatamente se destacam, pelo número e variedade das peças - o dos tapetes de Arraiolos e o das colchas e panos bordados de influência oriental. Para além destes dois grupos de bordados, não podemos deixar de salientar, como peça ímpar em toda a Colecção, a tapeçaria franco-flamenga, "O Cortejo com Girafas", tecida nas oficinas de Tournai no século XVI. A completar o conjunto escolhemos dois exemplares de tapetes orientais, de provável manufactura indo-persa, do tipo mais representado nas Colecções portuguesas. Consta que terá sido justamente um tapete de Arraiolos a primeira peça adquirida pelo Coleccionador, ainda adolescente. Como grande parte dos exemplares que foi reunindo ao longo da sua vida, esse tapete (inv. 615), produto da época áurea da produção arraiolense, atribuível ao século XVII, é bordado a lã, em ponto miúdo, sobre linho, apresentando o desenho contornado a ponto pé de flor, característica dos mais antigos tapetes de Arraiolos. (...).

Igualmente atribuível ao século XVII e também ainda de influência oriental o tapete (inv. 984) inspira-se talvez nos chamados "tapetes de rodas" que podemos associar aos tapetes turcos "Holbein" (do nome do artista que os divulgou na Pintura). (...) De forte colorido, com campo de fundo azul-escuro, barra amarela e cantos em azul, o tapete (inv. 66), apresenta decoração de rosetas, em eixos longitudinais preenchidos por flores ou pássaros, ligados entre si por entrelaçados de flores, compondo uma rede em todo o campo da peça. (...). Demonstrando ainda a influência dos padrões orientais na produção de Arraiolos, o tapete (inv. 180), atribuível já ao século XVIII, surge-nos quase como uma réplica bordada dos tapetes de nó, indo-persas, com decoração de palmetas e "nuvens", que abundam nas Colecções portuguesas. (...). Por seu lado o tapete (inv. 985), bordado a lã sobre linho em vários tons e com fundo cor-de-rosa, tem um desenho bastante original que foge aos cânones habituais. Para além da decoração floral de ramagens e enrolamentos que cobrem por exemplo o campo e a barra, apresenta um medalhão central ovalado, rodeado em cima e em baixo por um motivo de fita larga, numa composição de cunho popular, talvez inspirada em motivos mais elaborados que encontramos em certos tapetes persas da época clássica da manufactura de Kashan. A terminar a selecção de tapetes bordados de Arraiolos, um exemplar (inv. 976), também atribuível ao século XVIII, ajuda-nos a fazer a ponte para o núcleo que a seguir apresentamos - o das colchas e panos bordados orientais ou de influência oriental.


Alcatifa de estrado (Porm); Trabalho chinês, século XVII; Linho bordado a sedas policromas e fio laminado de papel dourado; Inv.176
(...). Com a riquíssima produção de colchas e panos bordados que abundavam no nosso país e ornamentavam os ambientes a partir dos séculos XVII/XVIII, (como facilmente nos demonstram os inventários da época), referindo-nos ora as peças trazidas do Oriente ora as bordadas localmente, não admira que encontremos num ambiente nobre português de Setecentos, como o que nos apresenta a Colecção Espírito Santo, uma representação tão variada de panos e colchas bordados. (...). Das peças mais originais da Colecção, a Colcha Bordada (inv. 176), em linho bordado a seda frouxa policroma e fio laminado de papel, trabalho provavelmente de origem europeia do século XVII, apresenta uma decoração de motivos florais e animalistas (pássaros, fénix, leões, coelhos) que preenchem por completo toda a peça, no campo e nas barras. Ao centro, uma grande peónia bordada é ladeada por imponentes fénix. Como o nome o indica, o guarda-porta de veludo de seda azul escuro (inv.95) com aplicações de seda pintada, branca e amarela, debruado a cordão de seda, com decoração de albarradas de flores e pássaros afrontados, nos ângulos e cabeceiras do campo, destinava-se a cobrir uma porta de uma casa solarenga, certamente da família Cunha cujo brasão de armas ostenta, em medalhão central. (...).


Colcha; Trabalho indo-português, século XVIII; Seda bege bordada a seda carmesim; Inv.88
Das colchas indo-portuguesas destacamos duas peças: a primeira (inv. 978), de seda bordada a seda amarela, em ponto de cadeia, apresenta campo e barra totalmente preenchidos por decoração floral estilizada, tendo, nos cantos, albarradas de flores e aves do paraíso, rodeadas de cravos. Nas barras a decoração floral é intercalada, aqui e ali, por pequenos pássaros e coelhos. Ao centro, num medalhão circular, surge a representação tão frequente da águia bicéfala. A colcha (inv. 88), igualmente trabalho indo-português atribuível ao século XVIII é totalmente bordada a seda carmesim, sobre seda verde clara, apresentando quer nos cantos do campo, quer nos das barras, albarradas de flores que se desenrolam cobrindo toda a superfície. Nas guardas, aparece a habitual decoração de enrolamentos e flores.



O medalhão central, circular, é decorado por duas águias afrontadas, encimadas por uma grande coroa e tendo ao centro um popular coração. A peça apresenta ainda franjas de seda com borlas nos cantos. Do conjunto de tapeçarias da Colecção escolhemos a peça sem dúvida mais importante - "Cortejo com Girafas" (inv. 37), pertencente ao grupo de cerca de uma vintena de exemplares existentes no mundo, da série - "À maneira de Portugal e da Índia", executada em lã e seda, nas oficinas franco-flamengas de Tournai, no primeiro terço do século XVI. Como o seu nome indica apresenta um cortejo colorido, de animais exóticos (girafas, elefantes, etc.) que, juntamente com os temas de caçadas, de cenas de embarque e desembarque, nos relatam episódios que marcaram a época, relacionados com os contactos com os novos mundos resultantes dos Descobrimentos Portugueses.



A terminar este conjunto de têxteis referimos dois exemplares de tapetes orientais (inv. 1292 e 1290) do grupo que tão bem representado se encontra nas Colecções portuguesas, quer do Estado, quer da Igreja, quer de particulares e a que é dada, por alguns especialistas, a classificação de indo-persas pertencendo à produção clássica, sobretudo do século XVII. (...). De todo o conjunto aqui apresentado se pode deduzir o peso da sua representatividade dentro do acervo global da Colecção da Fundação Ricardo do Espírito Santo, onde gostosamente revemos todo o esplendor e riqueza das nossas Artes Decorativas sobretudo dos séculos XVII e XVIII.

Cf. LEITE, Fernanda Passos - Têxteis . In Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva . Lisboa : FRESS, 1994 . p. 116-137

 
 
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