Colecções - Mobiliário


Oratório de pendurar - Japão, século XVI (final) período Momoyama - Arte namban; Madeira lacada de negro; pintura (óleo s/cobre); pó de ouro e prata; vestígios de laca vermelha; incrustações de madrepérola; Inv.1186

Escolher móveis neste Museu é tarefa fácil, porque a selecção já se encontra feita pelo Coleccionador, com sensibilidade, gosto e saber. Mais do que algumas peças, é de assinalar o conjunto, a harmonia da colecção, apesar de nela estarem representados mais de dois séculos de mobiliário, o que ajuda a criar uma atmosfera de casa habitada, onde as sucessivas gerações vão deixando as suas "marcas" - que são afinal o reflexo da Vida, a poesia do Tempo.(...)

 

Na completa impossibilidade de falar de todos os móveis (ultrapassam os 330), e consciente de que poderiam ter sido escolhidos outros igualmente merecedores, decidimo-nos por um critério cronológico, muito esquemático, com evidentes desequilíbrios, pois há épocas que estão mais representadas do que outras. As peças mais antigas são do final do século XVI - o Século prodigioso - que, em Portugal, testemunham o encontro da Renascença com o exotismo resultante da descoberta de novos mundos.
Exemplificamos com uma peça Nambam, pequeno retábulo itinerante, inserido no grupo das chamadas "lacas jesuítas" (inv. 1186). E ainda duas peças "indo-portuguesas" (século XVII) - um contador em que brilha a Cruz de Cristo (inv. 79), e um requintando escritório, …… precioso como uma jóia (inv. 46). (...)

 
 

Do século XVII destacam-se as seguintes peças para mostrar a sua específica originalidade, em parte resultante do isolamento do País em relação à Europa, reflectindo contactos e vivências que a esta eram alheias - um certo exotismo interpretado nas excelentes madeiras tropicais - com total compreensão das suas potencialidades, e o fascínio de novas técnicas e novos motivos decorativos, aliados a um saber de ofício ancestral.

 


Cadeira de braços - Portugal, séculos XVII-XVII. Nogueira torneada e entalhada; couro lavrado e gravado; Inv.56
Destacamos a cadeira de "sola", rígida e austera, que reflecte ainda um clima de etiqueta hierarquizada (inv. 56). (...) É de salientar ainda a sedutora fantasia oriental na pintura "acharoada" de dois armários (inv. 169 e 521).
O século XVIII trouxe, profundas transformações, formais e estéticas, em relação ao século anterior. As estruturas económicas e sociais são outras e, como sempre, o mobiliário vai traduzi-las. É o século mais representado no Museu, com peças distribuídas em número desigual pelos seus três grandes estilos: "D. João V", "D. José", e "D. Maria I" - e, entre estes, as épocas de transição, que são sempre fascinantes com as suas hesitações, avanços e recuos, em que acontecem momentos de grande criatividade. Têm particular interesse os móveis dos meados do século, quando se surpreende a subtileza do Rocaille a adaptar-se, a conquistar e a aligeirar as formas robustas do Barroco; como a talha relevada, vai baixando e afinando, até se tornar o trabalho fino, preciso e precioso do estilo D. José. Realçamos o preguiceiro de ornamentação simétrica mas que já assume a fremência inquieta do Rocaille (inv. 195).(...)


No período D. João V surge a moda das linhas curvas, que vão dominar durante a maior parte do século e, a grande mudança é de influência inglesa. Mas o carácter português está lá, inconfundível, nas madeiras e na exuberância da talha.
As cadeiras joaninas apresentadas exemplificam um percurso: desde a que ainda conserva o espaldar de couro gravado, mas com as linhas curvas do século XVIII, à "de vestir", dos meados do século, já com talha Rocaille (inv. 60).


Surgem canapés e preguiceiros e, lentamente, virão cadeiras apropriadas para escrever, barbear, jogar, pentear, etc.
Nas escolhidas para protagonizarem o período D. José, a maestria da marcenaria portuguesa atinge o apogeu: fundem-se influências inglesas e francesas e resultam peças de grande beleza e personalidade, em que, mais uma vez, e agora especialmente, é detectável o génio da "mistura" e da "recriação".



Mesa de múltiplas funções - Portugal, século XVIII (terceiro quartel); Pau-santo com embutidos de pau-rosa, espinheiro e marfim; ferragens de prata cinzelada; Inv.302
Executada com perfeito saber de ofício, a excelência da talha é como que uma assinatura deste período. Poder-se-á dizer que a talha foi o instrumento ideal para exprimir a fantasia rocaille, a sua agitação de movimentos ondulantes e assimétricos. (...). É óptimo exemplo, a Mesa de Jogo e Toucador, justamente considerada um dos mais requintados móveis portugueses, pela concepção criativa e o equilíbrio e harmonia das suas linhas curvas - móvel "testemunho" da graça e espírito do século XVIII, duma sociedade ávida de diversões (inv. 302).
Com o final do século, o Neoclassicismo de linhas rectilíneas, frias e racionais, foi menos sentido em Portugal do que o Barroco e o Rococó. É evidente uma perda de força criadora mas, mesmo assim, assume certo cariz próprio, com uma decoração "mais frágil que espiritual".


Nas cadeiras seleccionadas, são nítidas as influências estrangeiras. No entanto, numa delas, encontra-se a presença ancestral duma economia ligada às terras de além-mar, pela utilização da madeira de "caixa" - embalagens do açúcar vindo do Brasil. Pertence ao grupo das chamadas "douradinhas" (inv. 391). São de destacar as três peças assinadas por José Aniceto Raposo que, talvez por ele próprio ter tido o cargo de secretário da sua Corporação, foi um dos poucos marceneiros que obedeceu ao Regimento "Novos Capítulos do Regimento do Ofício de Carpinteiro e Samblagens" de 1770, assinando os móveis. Trabalhou nos finais do século XVIII e princípios do século XIX, e a sua obra apresenta características dos períodos D. Maria I e D. João VI. Assinala-se, especialmente, a Mesa Giratória, proveniente das colecções reais (inv. 345).

Cf. FREIRE, Fernanda Castro - Mobiliário . In Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva . Lisboa : FRESS, 1994 . p. 40-87

 
 
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